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Laudos que distorcem a realidade com metodologia “abstrata”. Quando narrativas, hipóteses, indícios ou conjecturas pulam as etapas de validação técnica e surgem como conclusivas

Foto do escritor: Engº Roger Teixeira | Pós-graduado em Patologia da Construção e em Perícias e Ciências Forenses
Engº Roger Teixeira | Pós-graduado em Patologia da Construção e em Perícias e Ciências Forenses
10 de mai.
5 min de leitura

Em 1954, o jornalista norte-americano Darrell Huff lançou o clássico How to Lie with Statistics.


Sim, é aquele livro azulzinho que você encontra nas livrarias com o título brasileiro Como mentir com estatística:



O livro ficou famoso por demonstrar algo desconfortável: não é preciso inventar números para distorcer a realidade.


Mais de setenta anos depois, o tema continua atual, talvez até mais atual do que o próprio autor imaginaria (ou que um engenheiro brasileiro estaria a comentando).


Basta selecionar dados de maneira conveniente, retirar contexto, exagerar conclusões ou transformar pequenas amostras em “verdades absolutas”.


Um dos casos mais absurdos, dentre tantos vários outros absurdos, que testemunhamos ao longo dos anos, está no caráter categórico que costuma vir no [desacreditado] “relatório” que nos é apresentado de que, um empreendimento com centenas de unidades, teria pingadeiras de concreto com “resistência inferior a 20 MPa”, “abaixo da norma” e “em todos os imóveis”.

Sequer considerados indícios, permanecem muito abaixo destes, muito menos se pode ter confirmada tal a incorreção, como inequívoca é que 100% das unidades teriam mesma resposta; e concreto não se define resistência “no olho”.

Se nem indícios podem ser considerados, abaixo do “zero” nos critérios de plausibilidade estaria, talvez, o caráter “folclórico” de alegação nesta linha; como nos antigos que “validavam” a qualidade do tijolo ou do concreto com uma marretada neles.

Irresponsáveis afirmações causam preocupação a quem não conhece o contexto, é leigo ao assunto ou, simplesmente, supõe que um profissional não se atreveria a “laudar” a situação descrita se não tivesse (1) confirmado o problema e (2) que ele é generalizado.


Sinto informar que, infelizmente, são até comuns estes casos.

O detalhe é que não foram “todas as unidades” vistoriadas e, muito menos, ensaios realizados para atestar algum valor. Em tese, fosse 1 ou 50, não é olhando para o concreto que podemos afirmar que ele está acima ou abaixo de 20MPa.

E quem atua com perícia de engenharia provavelmente já viu (ou não tão distante disto) acontecer diante dos próprios olhos.


Aliás, imagino que o colega engenheiro, que esteja lendo este artigo, já tenha se deparado com algum caso parecido com o anterior ou outro laudo extrajudicial “cirúrgico”:

Um profissional visita dois apartamentos, encontra uma infiltração localizada e, poucas páginas depois, conclui que o empreendimento inteiro possui “falha sistêmica generalizada”.

Tudo isso acompanhado de fotografias dramáticas, palavras em negrito e uma segurança textual quase cinematográfica.


E o oposto também existe, talvez com igual frequência.


O engenheiro contratado pela construtora vistoria justamente as áreas mais conservadas, ignora setores problemáticos, relativiza manifestações relevantes e transforma um cenário crítico em “situação pontual sem repercussão técnica significativa”.

Curiosamente, ambos os documentos costumam parecer extremamente técnicos quando lidos rapidamente.

Há tabelas.

Há fotografias.

Há palavras sofisticadas.


E, às vezes, há pouquíssima engenharia metodológica por trás daquilo tudo.


Convenhamos que isso não é engenharia séria; nem estatística séria. Mas é o tipo de situação que o livro “ironizava” lá em 1954.

E um engenheiro com maior experiência ou engajamento pessoal, não costuma “comprar” como robusto o laudo que mais “tenta validar-se” como categórico e conclusivo, do que esclarecer, o que é impossível quando indícios ou conjecturas pulam todas as etapas de validação e se tornam conclusões na caneta (ou mouse ou teclado) de quem finaliza o documento.

Se estivéssemos na faculdade, a caneta vermelha do professor de estruturas ou de cálculo certamente riscaria um X com “nota zero” em uma prova, quando observa o “pulo” sem explicação para o resultado que apresenta.

Na prática pericial, especialmente em avaliações extrajudiciais, existe uma tentação perigosa: transformar percepção em conclusão categórica antes que a investigação esteja madura.


O problema é que edificações não funcionam como “recortes isolados de rede social”. Um condomínio com centenas de unidades não pode ser tratado como totalmente comprometido — ou totalmente saudável — porque meia dúzia de locais foi escolhida estrategicamente para sustentar determinada narrativa.


Isso parece óbvio, mas não é raro vermos exatamente esse tipo de manobra, adotando narrativa como embasamento técnico e viés de confirmação como anamnese para diagnóstico, o que permite, em tese, encaixar praticamente tudo no documento.


Quem só busca vício como conclusão, não irá enxergar outros fatores
Quem só busca vício como conclusão, não irá enxergar outros fatores

São aqueles laudos que começam pela conclusão e só depois procuram os elementos que irão sustentá-la.


O roteiro já nasce pronto. E a falha conceitual junto.


Primeiro define-se quem “deve” estar certo. Depois organizam-se fotografias, trechos ou recortes técnicos e “amostras” compatíveis com aquela tese previamente escolhida.

Se o advogado mais jovem ou o síndico que chegou até este artigo considera preocupante o cenário, sinto informar: esse universo paralelo existe há muito tempo nas discussões técnicas dentro da Engenharia Legal e Patologia das Construcos, em especial.


E quem “milita” diariamente em perícias provavelmente já leu documentos em que a engenharia parece menos preocupada em esclarecer os fatos do que em construir uma narrativa tecnicamente aceitável.


Isso não significa que toda divergência técnica seja desonesta. Longe disso, pois a engenharia possui zonas cinzentas legítimas.

Dois profissionais sérios podem discordar sobre origem de uma infiltração, extensão de um dano ou comportamento de determinada estrutura.

O problema começa quando a amostragem deixa de ser ferramenta de investigação e passa a ser ferramenta de “convencimento”.

Porque existe enorme diferença entre: “os pontos vistoriados sugerem indícios compatíveis com determinado comportamento” e “está comprovado que toda a edificação apresenta falha generalizada”.

Se você já leu o artigo nosso sobre como funciona a prova técnica nos Estados Unidos, longe de elogiar aquele confronto entre versões que é do sistema e tradição deles, talvez imagine que documentos que não conseguem explicar cientificamente como uma amostra mínima se tornou conclusiva, sim, laudos desta natureza não atenderiam aqueles critérios e sequer seriam aceitos ou entrariam pela porta do tribunal.


Essa passagem apressada do indício para a certeza é uma das distorções mais comuns em documentos técnicos.


E aqui talvez esteja uma das maiores ironias do tema: muitos desses laudos são escritos com aparência de extrema objetividade, quando na verdade estão carregados de condução narrativa.


O texto parece técnico.

Mas a lógica da investigação já nasceu enviesada.


A amostragem séria exige critério, distribuição adequada, rastreabilidade e honestidade metodológica. Não basta fotografar os pontos mais convenientes e transformá-los em retrato absoluto da realidade. O bom engenheiro sabe disso.


O experiente desconfia de conclusões excessivamente perfeitas, lineares e categóricas demais.


Construções “reais” raramente se comportam de maneira tão simples quanto certos laudos tentam fazer parecer.


Edificações envelhecem de forma diferente.

Usuários intervêm. Sistemas sofrem manutenção desigual.


Há reformas.

Há uso inadequado.

Há reparos parciais.

Há patologias localizadas.

Há efeitos progressivos.


A realidade da construção civil costuma ser muito mais “bagunçada” do que algumas conclusões elegantemente fechadas no papel.

Talvez por isso o alerta daquele antigo livro continue tão atual dentro da engenharia legal.

Não porque profissionais saiam literalmente “mentindo com estatística”, mas porque números, amostras e percentuais possuem enorme capacidade de produzir aparência de precisão técnica — inclusive quando utilizados de forma intelectualmente preguiçosa ou convenientemente direcionada.


E aqui vale uma observação importante: prudência metodológica não enfraquece um laudo. Pelo contrário.

O profissional sério não tem receio de reconhecer limites da própria análise. Não transforma suspeita em certeza absoluta apenas para deixar o texto mais “forte”.

Estaria mentindo, trazendo materialidade sem existir materialidade. Logo, não se deve extrapolar além do que os dados permitem concluir.


Porque, no fim das contas, a boa perícia não é a que parece mais impactante, mas a que continua tecnicamente de pé por ter sido construída sob premissas corretas e distinção, do improvável, plausível, ao efetivo e confirmado.

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Artigos de autoria e responsabilidade de Engº Roger Teixeira
Pós-graduado em Patologia da Construção (UTFPR, 2015)
Pós-graduado em Perícias Criminais e Ciências Forenses
Professor de Avaliações e Perícias de Engenharia
Perito associado ao IBAPE desde 2012
CREA/SP 5070734714V - CREA/PR 127000/D - CREA/SC 124856-1

Teixeira & Costa Engenheiros Associados
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